Sometimes, doing nothing equals being evil (“Às vezes, não fazer nada é igual a ser mau”).

A frase escolhida para encerrar a reportagem do China Daily, no último dia 23, revela como anda a relação entre o governo chinês e o Google. Indiferentes ao conflito, os alunos chineses usam métodos para burlar a censura a alguns sites, além de versões orientais das páginas mais conhecidas aí no Brasil.

O jornal China Daily, com a maior tiragem em língua inglesa da China, é a voz oficial do Partido Comunista. Na reportagem Google “don’t be evil”?, fica claro que as coisas não andam bem entre as duas partes. O intuito é mostrar a todo custo que o lema “não seja mau” do principal site de buscas do mundo não corresponde às ações da empresa que o controla. O jornal acusa o Google é de irresponsabilidade por permitir que “informações prejudiciais, como pornografia e terrorismo” sejam acessadas e também de não preservar os direitos autorais.

A função da matéria é ao mesmo tempo provar que o Google está longe de ser um “anjo no ciberespaço” e defender o que considera como a necessidade de uma “censura sensata” por qualquer governo,  principalmente o chinês.

Desde março, o Google e o governo chinês não se entendem. Quando você digita o endereço google.com.cn, que corresponderia ao Google chinês, há um aviso para que você redirecione suas buscas para o Google Hong Kong. Mesmo sendo um “região administrativa especial da República Popular da China”, Hong Kong está sob um regime diferenciado há 50 anos (com mais liberdade de expressão).

O redirecionamento sugerido pelo Google à página de Hong Kong depois do conflito com o governo chinês

Durante o período que estamos aqui, é comum ver os universitários utilizando o buscador na sua versão chinesa. Em vez do Google, o Baidu (o governo controla essas buscas). Aqui na Pekin University, já questionei a muitos alunos por que eles não usam o Google e eles sempre dizem que no Baidu é mais fácil para encontrar informações sobre a China ou, como são universitários, artigos de professores chineses.

Repare como o Baidu parece um Google fake. Hoje, o buscador chinês já está na lista dos dez sites mais acessados do mundo

Na Shanghai Jiao Tong University, em Xangai, ainda antes de vir para cá, estava com medo de não conseguir acessar meus emails no Gmail. Assim que vi um aluno acessando o Baidu, perguntei se o Google era proibido dentro da universidade (estávamos na biblioteca) e ele disse que não. Mas, quando tentou abrir, a página não carregou.

Tentativa frustrada de acessar o site da CHRD, mesmo no Google Brasil

Aqui em Pequim, não teve problemas. O Google.hk é permitido e, claro, o Gmail também. Mas Youtube, Twitter, Facebook, alguns sites de  plataforma wiki são bloqueados, além de vários blogs (ainda bem que este não!:)). Nos últimos dias, o governo chinês foi acusado pela China Human Rights Defenders (CHRD) de exigir o fechamento de 100 blogs. Entre eles, alguns de pensadores da Universidade de Pequim.

Coisas estranhas também acontecem. Às vezes estou fazendo buscas no Google do Brasil e quando tento acessar algum blog ou site, o firewall chinês bloqueia todas as páginas. É preciso fechar tudo, abrir de novo e desistir de entrar naquela página. Expressões com conotação política, então, como massacre na Praça da Paz Celestial, ou o site da CHRD, nem pensar.

Mas, quando se fala de internet, a censura sempre é mais difícil de ser cumprida. Sei que o exemplo pode parecer simplista perto da conotação política que os bloqueios assumem aqui na China, mas só a título de comparação, é como as  universidades brasileiras que proíbem os seus alunos de acessarem o Orkut dentro do campus. Mesmo assim, os alunos sempre arrumam um jeitinho de conferir os recados e mandar scraps nos laboratórios. Depois que a universidade descobre o caminho, ele é novamente bloqueado.

Aparentemente, esta universitária que estava na minha frente aproveitava a aula para fazer um trabalho. O que a difere de um brasileiro é o site de pesquisas (Baidu), mas pude ver que também rola muito ctrl C + ctrl V

Aqui é a mesma coisas. Para acessar sites da lista negra, os alunos chineses usam o Free Gate (como nos outros sites e, claro, está bloqueado nas buscas do Google, mesmo o do Brasil).  E não pense que é um ou outro não. Quase todos sabem usar porque quase todos têm conta no Facebook, mesmo sendo um dos sites bloqueados. E eles ainda fazem cara de espanto quando você diz que não faz parte dessa rede social.

Agora para aqueles que não querem ser contrários ao bloqueio imposto pelo Partido, há a possibilidade de adicionar amigos no RenRen.Kaixin (versão chinesa do Facebook ou Orkut). Se você fizer um vídeo legal, pode postá-lo no no Youku (versão popular do Youtube). Vale a pena acessar esses sites e ver como eles são cópias dos famosos ocidentais.

P.S.: Este post é em homenagem ao Thiago Araújo. Já estava pensando em tratar o assunto e ele sugeriu como uma boa pauta. Além disso, aproveito a oportunidade para agradecer ao apoio que ele está dando na publicação dos posts aí no Brasil. Obrigado! :)

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