Ni hao

Por um breve período, somos alunos especiais da Peking University, uma das universidades chinesas que gozam de reputação internacional. Depois de algum tempo indo e vindo das aulas e após conversar com alguns alunos chineses, já dá para ter alguma noção, mesmo que ainda muito parcial, de como é estudar aqui. Além disso, já posso fazer algumas comparações com a UFV.

"Carteirinha" da Universidade de Pequim

Tivemos que fazer nossa carteirinha (mini livrinho) para entrar no campus

A Universidade de Pequim foi fundada em 1898, com o nome de Universidade Imperial de Pequim. Depois da abertura chinesa ao mundo capitalista, a universidade passou por uma grande mudança. Hoje, ela conta com cursos nas áreas de ciências naturais, tecnológicas, humanas, sociais, médicas, informática e engenharia.

No último levantamento Times Higher Education 2009-QS World University Rankings, publicado pelo jornal britânico The Times, a Peking University aparece como a 52º melhor universidade do mundo, numa lista de 200 instituições, sem nenhuma brasileira (nem mesmo a USP).

Para entrar na Universidade de Pequim, é preciso estudar muito, mas muito mesmo. Os alunos disseram que se preparam desde cedo, no correspondente ao ensino fundamental e médio no Brasil. Eles deixam a casa dos pais desde novinhos e se mudam para a escola, onde estudam como loucos para terem condições de entrar nas melhores universidades (como no Brasil, elas também são públicas).

Jardins do campus

Um dos muitos jardins encontrados pelo campus

Além disso, sofrem uma pressão muito grande já que os pais investem tudo o que possuem para fazer com que os filhos entrem na universidade e depois para custear as despesas durante o ensino superior. Um dos alunos disse que a família separa 80% de tudo o que ganha para sustentá-lo na Universidade.

Aqui, como no nosso país, o correspondente ao vestibular, chamado de exame nacional, é criticado por muitas pessoas pelos mesmos motivos, às vezes, com algum grau de diferença: 1) Exige muito dos alunos: eles estudam por muito tempo durante o dia e a noite, tendo somente 1o a 15 minutos para fazer as refeições e 6 horas para dormir; 2) mesmo assim, os alunos não são capazes de fazer relação entre o que aprendem em sala de aula com as necessidades da vida cotidiana; 3) o Partido Comunista escolhe as disciplinas que considera importante. Os currículos escolares privilegiam as exatas e biológicas em detrimento das relacionadas à história, cultura e língua chinesas. Claro que essa decisão faz todo o sentido quando não se quer despertar o senso crítico na escola.

Quadras de basquete

Nesse espaço, existem oito quadras de basquete, uma do lado da outra; todas lotadas hoje à tarde

Uma diferença é que os alunos decidem os cursos depois do exame, podendo escolher qualquer um, dependendo da nota. Depois que consegue entrar, a maior parte (mais do que 90%) mora dentro do campus, nos alojamentos. Eles pagam uma taxa de 1020 yuan (mais ou menos R$ 270) por ano. Para a energia e água, existe uma cota livre; se ultrapassar, tem que pagar a mais. Os estudantes, porém, dizem que é barato. A alimentação também: almoço e jantar, todos os dias, sai no final do mês por 200 a 700 yuan (de R$ 52 a R$185).

Para usar a internet, mesmo sendo wi fi, também é preciso pagar. Eles têm duas opções: se for para usar um sistema intranet, o preço é acessível; se quiser acessar sites de fora da universidade e, principalmente, internacionais (mesmo correndo o risco de serem bloqueados), o preço é 8 vezes mais caro. Nem precisa dizer que a maioria é obrigada a ficar com a primeira opção.

Os alunos sentem muito orgulho da universidade e do campus. Eles sabem explicar as origens e todo o significado e a mística que envolvem os vários lugares.  Se a UFV tem as quatro pilastras como símbolo, a Pekin University escolheu a torre construída para proteger uma fonte que jorrava água por até três metros. Em chinês, o nome dessa torre são três ideogramas que correspondem a Torre + Sábia + Elegante.

Torre

O ideograma correspondente à sábia no nome da torre é o mesmo que identifica o sobrenome da pessoa que doou o dinheiro para construí-la

Eles também têm uma lagoa. Só que aqui é chamada de Lago Sem Nome. Tudo bem que a lagoa da UFV também não tem um nome, mas eu achei estranho quando ouvi o nome Sem Nome do lago. Perguntei a um chinês se ele concordava comigo, mas ele me disse que, para os chineses, o nome é muito bonito: “É como uma pintura chinesa em branco com a possibilidade de cada um completar o significado”.

Quem batizou o nome do Lago Sem Nome não é muito conhecido na China pelo fato de não ter sido comunista

Quem batizou o nome do Lago Sem Nome não é muito conhecido na China pelo fato de não ter sido comunista

Assim como a lagoa da UFV,  o lago da PKU também não é um presente da natureza. Ele foi construído para servir de jardim ao imperador. Ele e o povo chinês acreditavam que existia uma ilha onde eram encontrados remédios que traziam a longevidade. Aqui no campus da universidade tem uma representação desse lugar. No nome chinês, são três ideogramas que correspondem a Lago + Nome + Ainda Não.

Para os chineses, o barco representa o imperador; a água, o povo. Como a água pode sustentar ou derrubar o barco, as pessoas podem fazer a mesma coisa com o imperador

Para os chineses, o barco representa o imperador; a água, o povo. Como a água pode sustentar ou derrubar o barco, as pessoas podem fazer a mesma coisa com o imperador

A biblioteca é o terceiro símbolo da Pekin University. Ela é a maior biblioteca universitária da Ásia, com 7 milhões de livros. Novamente, três ideogramas formam o nome biblioteca: Lugar de guardar + Livro + Mapa.

Vista da fachada da biblioteca

Muitas pessoas posam na frente do prédio para as fotos durante todo o dia

Torre

O interessante é que tirando um ideograma do nome de cada símbolo da universidade, os que correspondem as palavras torre, lago e mapa se forma a expressão: “Tudo é muito mal”.

Ela é usada para definir tanto a universidade como as pessoas que aqui estudam. O estudante chinês que nos acompanhou pela visita ao campus faz uma ressalva: se antes a expressão tinha esse significado negativo, agora ela diz exatamente o contrário.

Zái jián.

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