Marília, Florbela, Vitor e Eurico. Logo na apresentação, os nomes soam familiar. É assim que Ma Lin, Jia Fengjuan, Liu Pie e Zhou Xiaoguo resolveram se “rebatizar” quando começaram o curso superior em Língua Portuguesa. Eles fazem parte da única turma de 10 alunos da Universidade de Pequim que têm contato diário com a nossa língua e com o universo que a envolve.

Os alunos de Língua Portuguesa da Universidade de Pequim: Vitor, Florbela, Marília e Eurico (da esq. para a direita)
Antes, é bom explicar que é comum os chineses escolherem um nome ocidental para se apresentarem aos estrangeiros. Isso evita constrangimentos das duas partes, já que, muitas vezes, não é fácil pronunciar corretamente alguns nomes.
A maioria, porém, opta pelo que denominam de Engish’s name (um nome em inglês). Por exemplo, em Xangai, conhecemos um aluno chinês que decidiu ser Rambo. Os alunos de Língua Portuguesa (e não poderia ser diferente!) preferiram um nome na nossa língua.

Sala do Núcleo de Cultura Brasileira da Universidade de Pequim, inaugurado pelo presidente Lula em 2004
O curso
Eles estão no 3º ano de quatro anos de graduação. As aulas são ministradas por professores de Portugal, de Macau (cidade chinesa que foi colonizada pelos portuguesas) e do Brasil. É como um curso de Letras, com habilitação em língua estrangeira do Brasil: estudam tanto aspectos línguísticos como literários.

No Núcleo, há bastante material sobre o Brasil: livros, mapas, CD's de músicas. Detalhe para a coleção de poesias de Mário Quintanta em chinês e português
O que dificulta o aprendizado é a pouca oportunidade que eles têm para praticar a conversação num país onde quase ninguém fala português. Por isso que os quatro decidiram ficar na Universidade, mesmo no período de férias, para não desperdiçar a chance de conviver com tantos brasileiros. É bom que assim eles também conseguem captar algumas expressões próprias do nosso português já que, pela influência dos professores e da proximidade de Macau, todos falam um português muito parecido com o de Portugal.<
Vitor disse ter ficado confuso nas primeiras vezes que um brasileiro perguntou para ele onde ficava o banheiro (em Portugal, se tiver apertado é melhor dizer “casa de banho” para ser compreendido). Agora ele e os outros chineses já aprenderam com os brasileiros a se cumprimentar com um “beleza” e outras expressões impublicáveis aqui.
Outra coisa que pega é a gramática. Se até os brasileiros sofrem para decorar as listas de verbos que vai do pretérito-mais-que-perfeito do indicativo ao futuro do subjuntivo, passando pelo imperativo, imagina quem não costuma conjugar nenhum verbo na língua materna.
Os quatro alunos que eu conversei querem muito conhecer o Brasil. Eles têm medo da violência (reflexo da imagem dos filmes que assistiram sobre o país: Cidade de Deus e Tropa de Elite estão na lista), mas são loucos para aperfeiçoar a língua “num país tão ativo e alegre”, como definiu Florbela.
Vitor disse que, antes de fazer Língua Portuguesa, só sabia que o Brasil é o país do futebol. Agora, fica admirado com a mistura que faz parte da nossa cultura. Para Eurico, que chegou a “trocar algumas frases” com a primeria-dama Marisa Letícia quando o presidente Lula veio para uma exposição fotográfica sobre a Amazônia em Pequim, “o Brasil é a China tropical”: ambos estão num processo de desenvolvimento muito forte, mas ainda precisam sanar problemas resultantes de um crescimento tão desigual.
Professora
Társila Lemos Borges, formada em Letras pela Universidade de São Paulo, é a única professora brasileira do Departamento de Língua Portuguesa. Ela é contratada pela Capes, em uma parceria do governo brasileiro com o governo chinês.
Antes, Társila trabalhou algum tempo como tradutora de inglês e espanhol, mas viu que o mercado estava cada vez mais competitivo. Decidiu, então, estudar uma língua “diferente”, que poucos conheciam, de preferência da Ásia. Ficou em dúvida entre japonês, árabe e chinês. A escolha pela última veio quando a China ainda era uma promessa no cenário internacional.
Pediu, então, uma bolsa de estudos ao governo chinês e veio, sozinha, para Pequim. Ao desembarcar no aeroporto não sabia como pedir informações ou conseguir um táxi. Chorou. Não porque queria voltar ao Brasil, mas porque não sabia como resolver a situação.
No início as coisas foram mais difíceis. Para se comunicar em chinês, ela estuda a língua, mais ou menos, quatro horas por dia. A solidão e a falta dos amigos também às vezes aperta, o que faz com que a paulista sinta saudades das praias do Rio de Janeiro ou da tranquilidade de Minas Gerais. Ela, geralmente, visita o pais uma vez por ano.
Hoje, quase quatro anos aqui, está habituada à lingua (vai fazer o exame de proficiência no fim do ano) e aos costumes chineses (que passam longe dos esteriótipos preconceituosos que muitos brasileiros possuem). Além disso, trabalha na Universidade e não é apenas uma estudante como no início. Tanto é que não tem vontade de voltar ao Brasil tão cedo: pretende fazer o doutorado na Universidade de Pequim e só depois de, no mínimo, quatro anos voltar para o nosso país.<
Mistérios
Os alunos de Língua Portuguesa ainda não tiveram aulas de literatura brasileira. Quando perguntei qual autor brasileiro que eles conheciam, eles disseram Paulo Coelho. Fiz uma cara de “putz, justo esse” e eles sorriram aliviados porque disseram não ter entendido muito a magia do livro que leram. Eu disse a eles que podiam relaxar já que muitos no Brasil também não decifraram qual é o segredo do autor mais vendido do Brasil no mundo.
Eles tiraram cinco cópias das mais de 600 páginas do livro “Os cem melhores contos do século” que eu trouxe na bagagem. Também fizeram cópias digitalizadas dos romances e contos do Machado de Assis que eu tenho no PC. Marília ficou feliz ao saber que eu tinha algumas pastas de música brasileira e depois abriu um sorriso quando viu o nome da Vanessa da Mata (a cantora brasileira preferida dela).
Eu quis saber por que eles se decidiram pela Língua Portuguesa. Eles respondem que é pelas possibilidades de emprego já que a China está estreitando relações comerciais com os países que têm o português como idioma oficial. Eles estão corretos nesse ponto. Mas, o que descobri depois é que, na verdade, nenhum escolheu Língua Portuguesa como graduação. Depois que fizeram o exame para admissão na Universidade, optaram por Língua Espanhola. O governo chinês decidiu que era preciso ter um curso superior experimental em Língua Portuguesa e “aconselhou” que esses dez alunos mudassem de curso. Claro que ninguém pensou em contestar.




